quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Do you need anybody?

O que importa, no final, são as pessoas que cativamos.
Ando bastante ocupado, escrevendo o texto da minha dissertação de mestrado. Pretendo defender ainda esse ano, então tenho precisado correr. Engraçado como às vezes tudo parece caminhar para um desastre, as boas perspectivas parecem impossíveis, parecem desaparecer. Era assim a alguns meses, cheguei a acreditar que esse mestrado não sairia, e entretanto agora devo ser o cara mais otimista dentre meus amigos.
Além disso, hoje fiquei sabendo que provavelmente conseguirei fazer meu doutorado próximo ano, no lugar em que desejava: França. Não é uma certeza absoluta, mas me parece que realmente vai dar certo.
Explico agora a frase solta no início do post. Nada do que citei acima seria possível, se eu não tivesse conhecido as pessoas certas, nas horas certas. Acho que devo todo meu mestrado a alguém que se tornou uma pessoa especial para mim: minha orientadora, Cláudia. Nem preciso dizer das qualidades acadêmicas dela: ela é uma pessoa genial. Mas foi mais do que isso que me sustentou até aqui. Acho que ela já teve todos os motivos do mundo para não acreditar em mim: já aconteceu comigo de tudo, nesses dois anos: depressão, doença, preguiça. No entanto ela esteve sempre lá, e mais do que isso: sempre acreditou em mim.
Me mandou à França no começo do ano, quando poderia ter mandado tantos outros mais capazes do que eu. E foi graças a ela que acabei conhecendo outra pessoa excepcional, o Fred, que me orientou quando estive lá, e que é quem está providenciando minha ida no doutorado. Afora eles, meus amigos, que sempre estiveram comigo. Acho que tenho sorte, porque não tenho só um melhor amigo, tenho um grupo deles. André, Leon, Gabriel, Vitor. Já tem sido toda uma vida com eles, e é deles que vou sentir mais falta no dia em que tiver de me ausentar.
Não sei, hoje me senti invadido por esse sentimento de gratidão por todas essas pessoas, eu precisava mesmo escrever isso(ainda que saiba que nem todos eles poderão ler). Me sinto feliz, apesar que ainda tenha algumas coisas que insistem em incomodar, mas é mesmo como diz a música: "I get by with a little help from my friends".

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Farto de semideuses

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

- "Poema em linha reta", Fernando Pessoa